As rodas da velha Audi já haviam percorrido milhas e mais milhas quando o estimado senhor que a dirigia decidiu enfim parar. Parou em uma cidade escura, calma. Calmaria era tudo o que sentia necessidade extrema de conquistar nesse momento. Havia deixado sua amada Nova York para conquistar justamente isto: Calmaria.
Rodou mais algumas quadras, até parar em um semáforo, vermelho. A luz cintilava em contraste com a cidade calada. Algumas janelas pareciam ter suas luzes acessas mais todas estavam cobertas por cortinas pesadas.
O semáforo então de vermelho mudou para um pisca-pisca das três cores. Com um pouco de receio, seguiu em frente. Na carteira tinha cem dólares, no cartão uma quantia que há tempos não calculava. Era rico. Odiava se lembrar desse fato, mas era o mais verdadeiro em sua vida de mentiras. Uma vida de mentiras da qual hoje, agora, fugia.
Parou na primeira lanchonete que encontrou. Um lugar sem vida, assim como tudo na cidade. Ao entrar se deparou com vários homens e um odor de peixe. Sentou-se, afastado de todos que agora encaravam a ele.
– O que deseja? – uma loira de olhos extremamente verdes, vestida simplória com um vestido laranja pastel e um avental branco perguntaram.
– Café. – pediu sentindo-se imerso nos olhos da jovem garçonete. Uma beleza tão jovial, quase que encantada, presa em uma cidade de cinzas.
Enquanto ela se afastava, pensou em chamá-la para sair. Mas que coisa mais boba de se fazer! Um homem de trinta e sete anos se hipnotizando tão facilmente com uma loira garota de olhos verdes. E que olhos verdes… Ah, mas o que havia agora, olhos o encantado com tanta facilidade? Mal parecia ser o já bem viajado Richard Joseph.
– Aqui está. – de tão grande que eram seus devaneios não se deparou com a volta da jovem garçonete.
– Obrigada. – falou já se atrevendo a beber o quente café, que nojentamente também cheirava a peixe.
Em meio a goles de nariz tampado discretamente, ouviu sem querer, lamurios que pareciam confissões de um presidiário vindo de um velho cabisbaixo, sentado a mesa ao lado da sua. Não se lembrava de telo visto ali quando se sentou.
– Ruiva. – o velho murmurou pela primeira vez algo audível. O estimado Richard se aproximou apenas com a audição, e os olhos atento ao velho de aparência suja. – Olhos da cor… Da cor… – travou em sua fala. – A voz dela. – murmurou uma oitava mais baixa. – Onde ela está? – percebeu então que o velho tremia e olhava para os lados ainda de cabeça baixa. – Ela ira me levar… – suspirou alto. Levantou os olhos por um instante e olhos para o nosso estimado Richard. – Ela ira querer a você.
– Sr. Will. – repreendeu docemente a garçonete. – Venha, tome esse café, e ira ficar melhor. – falou já enchendo uma caneca grande com o liquido preto que fedia a peixe. Após isso os lindos olhos verdes miraram R. Joseph. – Deseja algo senhor? – perguntou e seu tom de voz pareceu mais fino, doce, ameno, convidativo. Sentiu se atraído, queria chegar mais perto, ver mais de perto, sentir a ela. Oh, da onde saíra àquela voz tão doce? – Senhor? – chamou novamente.
– Não, mais nada. Obrigada. – falou deixando olhar sem foco, se livrando daquela sensação de prisão que sentira ao olhar em seus olhos.
Sentindo-se confuso, pegou o pequeno celular que trazia consigo. Tocou levemente na tela e se deparou com algo que de certa forma – em seu interior – já esperava: Fora de Área. Mas isso não o afetou, não tinha ninguém com quem quisesse conversar agora. Na verdade, não havia vontade nenhuma em seu ser. Era como um humano em depressão. E talvez, bem fosse isto, um humano com certeza era, mas a depressão era um fato que poderia vir o atingindo.
O porquê de estar nessa cidadezinha que até agora não sabemos o nome? O porquê de não se importar com o celular sem área? O que um menino rico como ele fazia fugindo? Menino não, homem. Ou talvez, realmente menino a seu ver interior.
Tinha seus bem vividos trinta e poucos anos. Viajara o mundo, se apaixonara, fora enganado. Era dono agora de uma grande marca de veículos, fora suas fazendas em um país americano por ai, plantações de pimenta que o rendiam um dinheiro altíssimo. Tinha o que as maiorias dos homens de sua idade tanto almejavam ter: Dinheiro. Mas com já dizia velhos ditados: Dinheiro não compra a felicidade. E se comprasse, não estaria aqui, em uma cidade abandonada, com o farol piscando, sem linhas telefônicas e se encantando por uma jovem.
Tirou do mesmo bolso que tirará o celular, uma nota de vinte dólares e a colocou sobre a mesa. Levantou-se e se deparou com a lanchonete vazia. Não deu muita atenção, na verdade é até questionável para ele se ela já não estava assim quando chegou, afinal mal havia ouvido a voz de outras pessoas, e possivelmente os homens que vira ali antes fossem fruto de sua imaginação.
Nada para ele parecia ser real. Mais um truque de sua mente, que o leva a pensar que este preso em uma total bolha de loucura.
Caminhou em passos lentos até seu carro, voltou a dirigir circulando por toda a minúscula cidade. Não tinha muito… Uma lanchonete, alguma lojas de pesca, casas simplórias e com as luzes agora apagadas.
Parou novamente, mas agora frente ao porto. Vários barcos parados, uma melodia de fundo. Os vidros fechados por conta do frio tornavam impossível de realmente ouvir a canção que parecia soar tão alta lá fora. Para ele, ela chegava como um leve tremular dos vidros. Mas não ousou abrir para ouvir melhor. Sentia perigo naquele ato, mais ao mesmo tempo, sentiu vontade em fazê-lo. Mas se conteve, conteve enquanto se perdia vendo um brilho que emanava na água. Um brilho como cristal, que parecia ritmado – como era possível? – com a melodia que tremulava seus vidros.
Encantado e não mais pensante abriu a porta, e saiu, em passos lentos, mais calmos do que era esperado até estar entre os barcos.
A melodia que lhe tremulava os vidros, vinha de uma voz lírica, voz de anjo, calma e doce, com um tom tão maravilhoso que se sentia emocionado, mais ao mesmo tempo convidado a se perder entre as águas verdes, quase negras, que faziam com que aqueles barcos navegassem com tanta calmaria.
Chegou à ponta daquele caminho de madeiras velhas e que rangiam com cada passo, por mais leve que fosse. E ali, na ponta, não menos que exatamente na ponta, se deparou com os olhos verdes que pareciam enfeitiçar qualquer ser humano. E realmente poderiam. Viu que sua boca, sim a boca dela, se mexia, e dali saia aquele som tão agradável que o levará até ali.
Agachou o tocou-lhe a face com carinho, linda, fina e fria. Ela reagiu com a demonstração de carinho pendendo a cabeça levemente para o lado, e cantando um pouco mais alto e suspirando. O que o fez sorrir. E então foi a vez dela, o tocou e trouxe para si. O prendendo no seu ultimo e mais encantador momento. O ultimo beijo. E seu ultimo ver, os olhos verdes encantadores, junto à melodia calma e doce que ela balbuciava.